SEGUNDA LETRA DO ALFABETO hebraico: BETH

Israel tem um povo significativo, com características regionais e universais, que deu formação à Civilização Ocidental. Encontramos israelitas em todos os recantos do planeta, trabalhando e contribuindo no aperfeiçoamento da civilização.

Seu Alfabeto é rico em simbologia, haja vista a letra Beth, que é um ideograma primitivo, representado por casa, boca, etc... Seu valor aritmológico é 2.

A inicial da letra Beth tem sua origem na palavra bayit, que significa “a casa”. O hieróglifo egípcio desenha o plano de uma casa aberta na parte dianteira. O hebraico, proveniente do Sinai, segue, aproximadamente, esse desenho, se bem que a porta está mais para o lado direito. O protocannaanico aponta já uma mudança importante no grafismo. Mais adiante, a letra se simplifica e aparece sobre o pilar de Mesha, iniciando o símbolo cursivo que se completa no grego arcaico, para retornar, finalmente, ao grego mais antigo, desde a esquerda até a direita e vir a dar a nossa letra B. O hebraico detém o desenho da casa amplamente aberta do lado esquerdo.

A casa, por sua forma e finalidade, é a que recebe. O Beth é, essencialmente, o símbolo da receptividade. Em relação ao Aleph, emissor, o Beth é receptor. Identificada com o número 2, número par, essa letra é feminina e simboliza a receptividade do Aleph, letra de valor 1, como já vimos.

O Beth, casa do Aleph, é toda a Criação.

Mistério do Aleph, que põe diante dele a alteração sem estar ausente.

Mistério de Beth colocado como “outro”, separado de Aleph e, sem dúvida, não separado dele. O Mistério do 2, que contém, secretamente, o 1, tal como o ovo contém o germe.

Mistério da Criação chamada a germinar o seu Criador, trazê-lo ao mundo com o fim de ser integrada nele, de ser desposada por ele.

Na tradição hebraica, toda a Criação é chamada “Virgem de Israel”; a Virgem deve dar à luz o “Filho Divino”, para receber a coroa e ser desposada por Aleph.

Na ordem dos Princípios Divinos que nos constrói, a maternidade precede ao matrimônio. Por essa única perspectiva, pode ser apreendido o mistério cristão da virgindade-maternidade de Myriam, virgindade-maternidade que reúne nela o Mundo Divino, mi, ao da Criação, ma, reconstituindo as Águas Primordiais (mayim). Destas águas, nasce o Filho Divino. Maria é então coroada: desposada por Deus.

O Beth corresponde ao “dia seguinte” da Gênesis, quando Deus separa as águas de cima das águas debaixo, o mi do ma, a partir das águas (mayim) que o Espírito de Deus “envolve e fecunda”, ao mesmo tempo (se assim pode traduzir-se essa palavra merahephet, que representa uma ação maternal e masculina a sua vez). É o mundo de ma separado do mundo de mi, do qual é a imagem e, imediatamente, unido a ele nesse segundo dia pela rãqya, a extensão chamada samayim (esta palavra se traduz por “céus”).

A palavra samayim reconstitui, em torno da letra Sin, a palavra mayim, as águas primordiais antes de sua ruptura. Revela-nos que, separados um do outro, o mi e o ma estão também unidos no secreto da letra Sin.

Isto nos permite asseverar que o Mundo Divino e o Mundo Criado estão, indissoluvelmente, ligados, apesar de distinguir-se um do outro. Unidos sem estar confundidos, distintos um do outro, sem estarem separados, assim, por sua vez, o Aleph e o Bet, o Pai e a Criação, sua filha bem amada.

É intencional que escrevamos estas últimas palavras e que estabeleçamos entre o Aleph e o Bet a relação de Pai e Filha.

A tradição hebraica chama a Criação: Virgem de Israel. Mas a palavra Bet, ela mesma, cuja inicial constitui nossa letra B, está formada pela palavra bat, cujas duas letras emanam uma terceira letra, o Yod.

A palavra bat quer dizer “filha”. A letra Yod (de valor 10, retorna à Unidade), que perfila o Tetragrama (nome divino Yod-He-Waw-He, que os hebreus não se atrevem jamais a pronunciá-la), simboliza o Filho Divino.

A “casa” que é, entretanto, a Criação, revela ser, em profundidade, a Filha que contém o Filho Divino em suas entranhas e tem por vocação levá-lo em gestação e trazê-lo ao mundo.

Inscritas nas estruturas da língua, as estruturas da Criação podem resumir-se da seguinte forma: a Criação é a Filha, Virgem que deve dar à luz ao Filho Divino.

A relação de Pai e Filha que estabelecemos entre Aleph e Bet nos confirma a palavra ab, o “pai”. Se lermos bem esta palavra, podemos ver que o Pai (Aleph) estabelece a Criação-Filha (Bet) para morar nela, limitar-se, fazer-se germe nela.

Permutadas estas duas letras Aleph e Bet formam a palavra ba; diante do porvir, tempo em que a Criação (Bet) se unirá ao Pai (Aleph), quando a Filha receberá a “Coroa”, símbolo de matrimônio, tempo da realização.
Ao entrar em sua dimensão de Esposa, pois é mãe da Criança Divina, a Filha é desposada pelo Pai.

O verbo bo significa “entrar”, “penetrar”. Aqui se trata de penetrar na Terra prometida e fazer-se terra prometida para a penetração divina.

A relação dinâmica que um e o Aleph ao Bet e o Bet ao Aleph, passando pela Iluminação do Yod, este é o arquétipo da relação pai-filha e permite-nos aproximarmos das nossas estruturas fundamentais.

Por “estruturas fundamentais”, entendemos estruturas ontológicas, as que entrelaçam nosso ser em profundidade e cobrem nossas atuais estruturas psicossomáticas que, podemos dizer, “derivam” delas. Derivam, pois emanam das primeiras nossas estruturas de homens decaídos, a sua vez, “à margem” em relação a elas.

O drama da “queda” faz a separação entre a natureza ontológica que permace inscrita em nós e a “túnica de pele”, que já no ventre materno somos nós.

Apesar de estarmos submetidos a esta última natureza, podemos, por um trabalho de libertação, voltar a ser “ontológicos”, nós mesmos, voltar a encontrar as normas que seguem entrelaçando nossa natureza profunda.
Estas “normas” criadas pelo verbo são as mesmas estruturas da Língua–Mãe: revela-nos, então, que a língua hebraica é herdada da Língua-Mãe. Ela nos diz que a Virgem está grávida: no nível ontológico, a maternidade precede ao matrimônio. Está intimamente ligada à virgindade.

A maternidade, vivida comumente, segundo nossa natureza atual, assegura continuidade “animal” em um primeiro momento. Nele não radica a vocação fundamental do Homem: o tempo é dado ao Adam que somos todos, homens e mulheres, para que realizemos nossos espaços interiores, diferentes campos de consciência, assumindo maternidades interiores com o fim de trazermos ao mundo a Criança Divina. Esta Criança é cada um de nós, porém na dimensão de nosso “eu”, embora não suspeitemos. Esse último “eu” é nosso verdadeiro nome, que nos revelam as Escrituras no NOME, uno e coletivo.

Ao trazer ao mundo a Criança Divina, a Virgem entra na dimensão de Esposa. Cada maternidade interior permite ao homem aproximar-se dessa dimensão de Esposa. O que a Virgem Maria realizou no plano exterior, no mundo, é a vocação de cada um de nós em nosso Cosmos Interior. Exterior e interior são os dois pólos de uma mesma realidade.

Cada um de nós é a Virgem de Israel. Todavia, até o presente, a maioria permanece estéril. Todas as mulheres estéreis da Bíblia dão conta, simbolicamente, desta dolorosa realidade.
Todo ser pode despertar a sua verdadeira vocação e a Virgem-Mãe é comum na consciência de todos os povos. Expressa-se em seus livros sagrados, em seus cantos, suas danças e iconografia. Expressa-se em seu inconsciente coletivo por um comportamento exterior, que obedece a um instinto compensatório da vocação interior não assumida. No limite, esse instinto se esbarra com interdições que emanam também dessa mesma realidade fundamental.

A interdição do incesto, comum a todos os povos, pensamos que tem sua origem nesse conhecimento profundo e não consciente de que, o único Matrimônio verdadeiro Pai-Filha, pertence ao nível divino; qualquer outro que se interpusesse, seria sacrificado.

A oposição ao incesto não provém de uma lei moral – pois flutuaria, segundo os tempos e lugares – sem que se inscreva na ordem ontológica da Criação.

Muitos incestos psíquicos inconscientes – e compensatórios – são comuns em nossa humanidade, até infantil, em função da busca de seu Pai-Esposo, não ocorrendo menos obstáculos à realização ontológica, que os incestos com sua realidade física.

O incesto em relação com a Mãe se dá na mesma perspectiva, mas com outras palavras: nos revelaram nossos compromissos matrimoniais com a “Mãe das Profundidades”.

Acabamos de falar desta “vocação fundamental” que nos incumbe a todos, homens e mulheres, recordarmos que somos deuses (realidade que se esclarecerá pouco a pouco, ao adentrarmos nesta obra, à luz das letras – energias que estruturam nossa ontologia). Nossa realidade atual é uma visão longínqua da acima citada, desta Realeza. Realidade e Realeza, estas duas palavras compartilham da mesma raiz, motivo pelo qual projetamos em nossos sonhos ou em nossa vida diurna o Pai-Rei.

Durante séculos, a humanidade polarizou-se a este Pai Divino nos reis e imperadores exteriores, investindo-os de um poder quase divino; sua decepção não poderia ser senão imensa. Já Israel, que se opunha ao Rei Interno e pedia um rei exterior, havia sido prevenida por Samuel. Hoje em dia, em que os reis e príncipes desceram pouco a pouco de seus tronos, porque seu poder se transferiu ao interior de cada um de nós, no que está em potência, transformaram-se em ídolos ou ideologias exteriores, que ao serem privadas de toda referência arquetípica, jogam entre elas relações de força. O mundo, inconsciente de seus arquétipos, vive relações de força. Consciente de seus arquétipos, empreenderá o caminho até o Matrimônio.

A letra Bet veio apresentar-se diante do Santo – bendito seja –, para que ELE a concedesse presidir a Criação do Mundo. Se adiantou dizendo:
- “Eu sou a inicial da palavra que se utiliza para bendizer-te em cima e embaixo.”.

- “É efetivamente de ti que me servirei para começar a Criação do Mundo.” – respondeu o Senhor – “E tu serás, deste modo, a base da Obra de Criação.”.

Base e Bênção são os dois pólos fundamentais da letra Bet. No entanto é “base” a letra Bet que preside a primeira palavra da Gênesis - bere - e inicia, assim, o ritmo, o tempo dual de toda a vida criada: bara cria, descansa; movimento–repouso; movimento, o mesmo que nasceu naquele que, no Aleph, está mais longe da contradição mobilidade–imobilidade.

No princípio, ELE que é Uno se dá a conhecer em dualidade, segundo os pólos contrários. Escuridão-luz, úmido-seco, feminino-masculino, noite-dia... tudo é dual na manifestação da Unidade. E toda dualidade criada terá por vocação fazer-se una; ELE mesmo, a sua vez, chamado a ser desposado pela Unidade Incriada.

Para realizar esse retorno, a manifestação criada é dinamizada para bênção.

Dada por Deus, a bênção confere a base que recebeu, em si, força potencial de realização, a virtude que libera essa força. Sem a bênção, a base é inoperante.

Ao finalizar sua Obra, bendisse ao Homem-Adão, encarregado de cumprir a meta.

Mas a bênção se vive, assim mesmo, no celebrar perpétuo dirigido por ele a seu Criador.

Bênção a Ti no Alto. Bênção a Ti abaixo, disse Zohar, no mi e no ma, para que ambos, mi e ma, conheçam as Núpcias prometidas, entre as quais as demais letras nos conduzirão.