A PÁSCOA INICIÁtica

O termo Páscoa aparece em várias línguas (em hebraico "pessach", em grego "paskha", em latim "pache", em espanhol "pascua", em italiano "pasqua" e em francês "pâques", por exemplo) simbolizando em todas elas "transformação", "liberdade", "passagem".

A Páscoa se tornou uma festa cristã após a última Santa Ceia em que Jesus Cristo reuniu seus discípulos (os Apóstolos) e fez a refeição sagrada antes de ser crucificado. Os fiéis cristãos passaram então a celebrar a ressurreição de Cristo e sua elevação ao céu, em um período que começa na Quarta−Feira de Cinzas e termina no Domingo de Páscoa (Quaresma e Semana Santa).

Nos primórdios, a Páscoa simbolizava no Hemisfério Norte, o fim do inverno e a chegada da primavera, e, no Hemisfério Sul, o início do outono e começo de uma época auspiciosa.

Mas de onde surgiu este simbolismo? Por que o Cristianismo resolveu adotar esta festa como sendo uma das representações máximas de suas datas significativas? Para responder esta pergunta teremos que voltar até a época em que o Paganismo era seguido pela sociedade.

Os Pagãos homenageavam nesta época do ano a Deusa Ostera ou Esther − em inglês, Easter − que quer dizer Páscoa, sendo esta Deusa conhecida na Babilônia como Semíramis (ou Ishtar) que vem a ser a fundadora dos mistérios babilônicos, aquela que, juntamente com seu marido Ninrode, pode ser considerada como a co−fundadora de todas as religiões ocultistas existentes no mundo.

Ostera (ou Ostara) é a Deusa da Primavera, em sua mão segura um ovo, além de observar um coelho (que neste caso representa o Deus da Fertilidade, Oastre), pulando alegremente ao redor de seus pés nus. Este ovo é o símbolo de uma nova vida. É o espelho da beleza da natureza, da renovação do espírito e da mente.

A Deusa da Lua, Ishtar, é cultuada em várias culturas e religiões do mundo. Seguem alguns exemplos: para os Babilônicos − Deusa Ishtar; para os Católicos − Virgem Maria (Rainha dos Céus); para os Chineses − Shingmoo; para os Druidas − Virgo Paritura; para o Egípcios − Ísis; para os Efésios Pagãos − Diana; para os Etruscos − Nutria; para os Alemães (antigos) − Herta; para os Gregos − Afrodite / Ceres; para os Indianos − Isi / Indrian; para os Judeus Apóstatas Antigos − Astarte (Rainha dos Céus); para o Hinduístas − Devaki; para os Romanos − Vênus / Fortuna; para os Escandinavos − Disa e para os Sumérios − Nana.

Quando os Deuses Pagãos foram cristianizados muitas das comemorações e simbologias foram absorvidas, por isso que os símbolos tradicionais da Páscoa têm ligação com esta antiga comemoração.

Sendo assim, a Páscoa sempre representou, independente do local onde é comemorada, a passagem de um período de trevas para outro de luz e isto muito antes de ser considerada uma das principais festas do Cristianismo.

A escolha da data se deu devido ao antigo sistema de calendário lunar, tendo sido a data cristã fixada durante o Concílio de Nicéa, em 325 d.c., como sendo "o primeiro domingo após a primeira Lua Cheia que ocorre após ou no equinócio da primavera boreal".

Porém as tradições da Páscoa, tal qual conhecemos hoje, são provenientes não só dos Festivais Pagãos da Primavera (como citado anteriormente), mas também da celebração do Pessach (ou Passover), a Páscoa Judaica, sendo esta uma das mais importantes comemorações de seu calendário, já que os judeus celebram, durante oito dias, a saída dos israelitas do Egito durante o reinado do faraó Ramsés II (Ex 12.1−28), onde o protagonista desse evento foi Moisés (o homem comum que descobriu que a Centelha Divina habitava seu coração), o qual comandou seu povo através do Mar Vermelho e do deserto, chegando até o Monte Sinai (lugar em que recebe os dez mandamentos que iriam nortear para sempre a vida de todos os cristãos) para seu reencontro com a Divindade (busca que todos os Iniciados devem fazer: homens comuns transformados em Homens Divinos).

A Páscoa Judaica representa a passagem da escravidão para a liberdade/transformação, a qual deve ensinar para o Verdadeiro Buscador que, da mesma forma que o Grande Mestre Jesus ressurgiu da morte para a vida, se transformando e transformando a todos, também o deve fazê−lo aquele que já foi iniciado nos Mistérios.

O jantar da Páscoa para os judeus é a oportunidade do ensino da Torá, já que o filho mais novo pergunta ao pai, ou oficiante, qual o sentido de cada elemento e este, por sua vez, o responde com base nos textos do Livro Sagrado. E aí a Páscoa assume um novo significado, o da transmissão de conhecimentos ou ainda da morte do "homem velho"...

Após esta pequena explanação da Festa da Primavera Pagã e da Pessach Judaica, o Iniciado deve entender que da união de ambas surgiram símbolos de profundo significado esotérico, mas que há muito têm sido esquecidos, passando apenas à qualidade de produtos a serem consumidos. Poucas são as pessoas que sabem seu verdadeiro valor iniciático não celebrando a Páscoa em sua totalidade, mas sim uma data vazia envolta pelos Véus da Deusa Maya. Seguem alguns destes símbolos:

  1. Ovos de Páscoa − representam a renovação, a esperança de uma nova vida. Na antiguidade os egípcios e os persas tinham como costume tingir ovos com cores da primavera e presentear os amigos. Desta forma estariam presenteando a oportunidade de uma nova vida, mais bonita e colorida. Era o nascimento (os persas acreditavam que a Terra nasceu de um ovo gigante) ou o renascimento em uma mesma vida. Os Cristãos Primitivos do Oriente aderiram tal costume e também passaram a presentear aos seus com ovos coloridos na Páscoa.

    Mais tarde, os europeus além de presentear com os ovos, escreviam, em seu interior, mensagens e datas importantes antes de dá−los aos amigos. Já na Alemanha os mesmos eram dados somente as crianças porque como o ovo representa uma nova vida as crianças passam a ser uma melhor representação desta idéia, já que por serem pequeninas poderiam escrever uma nova trajetória. Os armênios decoravam ovos ocos com figuras de Jesus, Nossa Senhora entre outras imagens religiosas e também presenteavam as pessoas e, por fim, os pagãos os pintavam com símbolos mágicos ou de ouro para então enterrá−los ou lançá−los ao fogo como oferta aos deuses.

    Com isso, pode−se perceber que até então, esses ovos eram decorativos, ou seja, pela representação que traziam (ressurreição como início de uma vida nova) não eram comestíveis, ao contrário, davam o exemplo de que mesmo no inverno mais rigoroso (e a isto não se aplica só a estação do ano, mas sim aos obstáculos que a vida diária nos traz), sempre existe uma chance de recomeço.

    Por fim, os ovos são o símbolo da fertilidade da Mãe Terra, representando ainda o Ovo Cósmico da Vida, da vida dos Iniciados em busca da transformação.

  2. Chocolate − este alimento era considerado sagrado para as civilizaçães Maias e Astecas. Elas o comparavam ao ouro, tanto que os Astecas o utilizavam como moeda de troca. Com o passar dos anos a Europa (mais precisamente a partir do século XVI) começou a fazer uma mistura de sementes de cacau torradas e trituradas, água, mel e farinha, sendo esta a precursora do ovo de chocolate tal como conhecemos (os bombons e os ovos surgiram no século XX). Devido a este significado sagrado, foi unido a idéia do ovo, já que assim o doador estaria ofertando, além de uma nova vida de esperança (representação do ovo) uma caminhada repleta de riqueza e bonança, riqueza material e espiritual (novos conhecimentos).

  3. Coelho − no antigo Egito o coelho simbolizava o nascimento, a vida. Para os Pagãos era a fertilidade (pelo grande número de filhotes). Para os Cristãos, o coelho representa a Vida Nova proposta por Jesus, uma fonte inesgotável e abundante, que tem a capacidade de se multiplicar em seus filhos, sem nunca se esgotar. Para os Iniciados, o coelho vem a ser a força e a sabedoria necessárias para ultrapassar os obstáculos que lhes são propostos, os transformando em muitos para ser apenas um e assim promover a beleza da união mística com a Divindade.

  4. Fogo − na missa cristã de sábado, a Liturgia é iniciada com a bênção do fogo que passa a ser chamado de "fogo novo". Tal representação é proveniente dos agricultores, que sem dominar a tecnologia, usavam o fogo como forma de preparar o terreno para o plantio (através de uma técnica milenar e primitiva), ou seja, é o fogo que vai permitir que todos os obstáculos (ervas daninhas) sejam removidos para que o alimento cresça, trazendo força e vigor. Mas o fogo, quando não é bem utilizado, passa a ter uma força destruidora... Assim, o fogo é o elemento que o Iniciado mais se aproxima quando entra na Senda Espiritual, pois passa a ter acesso ao Fogo Sagrado, o Fogo Purificador, que se eleva em chamas brilhantes rumo ao Céu, para que após este contato, habite o Chakra Cardíaco (Altar do Divino), se tornando a centelha que arde em todas as coisas.

  5. Água − assim como água mata a sede e purifica o corpo, ela também pode destruir aqueles que não souberem aproveitá−la. A água tem o poder de purificar e transformar o homem em um Ser Divino, ela limpa tudo e todos, tornando sagrado aquele que dela bebe.

  6. Pão e Vinho − estes dois elementos eram, na antiguidade, muito comuns entre os povos. Desta forma, Cristo os escolheu para representar a Eucaristia, já que queria ser uma presença constante na vida das pessoas que O aceitassem. Por isso que o pão e o vinho simbolizam a aliança eterna do Criador com sua Criatura. Já quando os judeus optam pelo consumo do Pão Ázimo (matsah) na celebração da Páscoa, o fazem como uma referência a saída do Egito, em que eles não tiveram tempo para esperar fermentar a massa do pão (Ex 12.39). O pão e o vinho mostram que o Iniciado não precisa se valer de nada que esteja fora dele, ou longe dele, ou seja, todas as ferramentas de que precisa para evoluir estão dentro de seus corpos que unidos a fala, a mente e ao espírito podem atingir a iluminação completa.

Enfim, a Páscoa nos traz dois símbolos importantes e que devemos refletir imensamente, sobretudo nos dias de hoje, em que a humanidade passa por um período de trevas (Kali Yuga − Idade Negra): a Transformação (de uma velha e viciada vida em uma nova e muito mais consciente) e a Libertação (daquilo que nos mantêm escravos de nós mesmos).

Max Heindel (dinamarquês ocultista, astrólogo e místico cristão) ensinava que as passagens descritas no Evangelho sobre a Vida de Cristo não devem ser vistas apenas como uma história contada, mas sim como experiências ou processos que um Iniciado deve passar. Não podemos esquecer jamais, em tempo algum, que somos Crestos em busca de nos tornar Cristos plenamente Realizados.

Quando Maria Madalena e Virgem Maria vão até o sepulcro (representação da morte) de Cristo, simbolizam a força criadora que deve caminhar pela vida do Iniciado. É a serpente (Kundalini, Força Feminina) que estava adormecida e que agora, conscientemente, pode fazer seu caminho ascendente (pela coluna vertebral) em busca de Fohat (Força Masculina, representada por Jesus) e tendo passado pela Glândula Pineal, pode enfim se alojar no Chakra Cardíaco (centro do amor e da transformação) e conduzir aquele que a buscou a uma nova morada, passando a praticar a vida na morte, deixando a ilusão da morte em vida...

Se conseguirmos entender e praticar tudo o que a simbologia desta data nos traz, teremos a oportunidade, todos os anos, de vivenciar a Páscoa Iniciática, a qual tem um significado muito mais profundo, que é o da mudança de um estado de consciência para outro superior, é o religare, a união do Humano com o Divino, até não mais precisarmos de um tempo, pois o presente, o passado e o futuro se tornarão um só: a Iniciação Plena!

"Cada vez mais brilhante, fulgurando com a luz de dez milhões de sóis resplandecentes, o Iniciado busca reiniciar o trajeto central, o mais frequente e rápido possível, tentando atingir a 'máxima altura', para que então possa experimentar o estado de êxtase supremo" Santo Agostinho

Adriana Aranha
Sacerdotisa da Ordem Beth
05/04/2009
driaranha@ig.com.br

Bibliografia:

• BOUCHER, Jules. A Simbólica Maçônica, 11ª Edição, 2001.
• BAILEY, Alice. Cartas Sobre Meditação Ocultista. Ed. Pensamento, SP, 1994.
• JUNG, Carl G. O Homem e Seus Símbolos. Ed. Nova Fronteira, 2. Edição, RJ, 1964.
• Diversas Monografias da Confraria Mística Brasileira