A CORRUPÇÃO INSTITUÍDA NO SISTEMA EDUCACIONAL VIGENTE

Vivemos, nos dias de hoje, a total decadência do segmento Educação em nossa Sociedade, em virtude de não estar mais cumprindo o seu objetivo precípuo que é garantir a todos os indivíduos a base para o exercício da cidadania e de uma vida mais justa, mais solidária e feliz, direcionando-os a ocupar o seu verdadeiro lugar no meio social.

A instituição “Escola” tem a função de, através de seus educadores, levar o indivíduo a formular e desenvolver seu pensamento, a refletir e criticar as situações apresentadas e experienciadas em seu ambiente social, tornando-o um ser consciente, participativo e atuante. Para tanto, não deve sofrer interferências partidárias, raciais, religiosas ou de qualquer classe.

Os educadores, por sua vez, devem, com total imparcialidade, transmitir os conhecimentos, relatar os fatos e valores do passado levando seus educandos a fazerem uma correlação de tais experiências com o momento atual da Sociedade, conduzindo-os a uma reflexão e a um reposicionamento em relação às informações obtidas, criando possibilidades de um presente e futuro mais felizes, na compreensão das realizações do passado.

A realidade atual exige de cada um de nós e principalmente de nossas crianças e adolescentes, uma mentalidade mais ampla, universalista, pois a tecnologia e a cultura criam, constantemente, novos desafios. Precisamos ter uma “Escola” que desenvolva em nossos alunos uma visão mais crítica e ampliada dos recursos que estão a nossa volta, levando-os a posicionarem-se no presente e a direcionarem suas potencialidades vislumbrando as necessidades do futuro onde deverão estar totalmente integrados.

A falta de adequação do Sistema de Ensino às necessidades do momento em que vivemos, onde uma nova realidade tecnológica e cultural, criada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação e de processamento de informação leva o alunado a uma total descredibilidade e desinteresse. Isto se deve a “Escola” refletir ainda os valores do passado, onde a maioria dos profissionais de educação está preocupada com o repetir automático de exemplos e exercícios e com a memorização de informações, de datas e nomes, que dão a falsa impressão de aprendizagem.

A incrementação do mobiliário, montagem de laboratórios de informática que trazem, de certa forma, a possibilidade de o alunado entrar em contato com a modernidade, levando-os a pesquisar e digitar trabalhos..., não é o suficiente. Precisamos mudar a nossa mentalidade diante do “Novo”. Fazer tudo isto e continuarmos pensando da mesma forma, cobrando da mesma forma, aplicando testes e provas valendo notas, cobrando até décimos e milésimos, pergunto eu: Onde está o “Novo”? Quais foram as reais mudanças implementadas?

O que precisamos sim, é reinventar a ação de educar e entendermos que o processo de avaliação deve ser mais amplo do que uma simples aferição de conhecimentos adquiridos num dado momento da trajetória escolar do aluno.

Sabemos que hoje a nossa “Escola” não é um modelo que atende às necessidades da atualidade, mas precisamos chegar ao ideal através deste modelo atual, isto é, não podemos de forma alguma alijar esses profissionais que vêm há anos exercendo suas funções da melhor forma possível. Precisamos sim é sensibilizá-los para a necessidade da mudança, para que eles possam contribuir na transição para o “Novo”. Não podemos tirar a dignidade e a importância desses profissionais que cumpriram o seu papel até o presente momento da Sociedade.

Constatamos, com pesar, que em nossas escolas públicas e também particulares ocorre um fato triste e comprometedor para o desenvolvimento saudável de nossas crianças e adolescentes. O fato é que a maioria das avaliações feitas pelos profissionais de educação em relação à não aprovação e até mesmo em relação às avaliações bimestrais, é contestada e muitas das vezes seu resultado é alterado em virtude da pressão e discordância dos responsáveis.

Contestar o que achamos errado é próprio em qualquer situação. Mas, a coação para que aquela mudança seja feita em atendimento ao desejo de um pai ou de uma mãe que anseia que seu filho “passe de ano”, mesmo quando este não tem a menor condição, desconsiderando a apreciação do profissional daquela área, não é um ato digno, principalmente dentro de um ambiente de ensino, pois estamos lidando com a formação de indivíduos e qualquer ato desta natureza pode ser assimilado de forma negativa.

O professorado da escola pública se sente na obrigação de “aprovar” o seu aluno, mesmo quando este não reúne condições satisfatórias, isto é, não conquistou o amadurecimento necessário para realizar sozinho ou com assessoramento de um profissional ou de um colega, as tarefas que lhe cabem realizar. A pressão é feita de cima para baixo, através dos órgãos competentes nesta área, para que as estatísticas denotem o melhor índice possível de aprovação. Desta forma, aquele aluno que precisa de mais um tempo para desenvolver suas capacidades é colocado na série seguinte sem a menor condição para tal, e muitas das vezes carrega suas dificuldades por toda a trajetória escolar.

Nas escolas particulares a pressão é feita pelo “dono” do estabelecimento e seus representantes, pois se um aluno é reprovado desagrada-se ao seu responsável e este pode no ano seguinte retirar o seu filho desta escola colocando-o em outra. Sendo assim, o estabelecimento de ensino deixa de receber esta mensalidade. Neste caso, a preocupação é com a manutenção econômica do estabelecimento e não com a condição do aluno.

E assim, em ambos os casos, a corrupção se instala dentro da instituição. Até mesmo o aluno que passa o ano letivo sem cumprir suas tarefas, sem se preocupar com o seu aprimoramento, na maioria das vezes voltado para outros interesses que não o seu aprendizado, chega ao final e conquista a sua “aprovação”, da mesma forma que aluno que estudou e se esforçou para superar suas dificuldades. Passamos assim a incutir desde cedo na cabeça das crianças e adolescentes um mau hábito, aquele do “jeitinho brasileiro”, aquele de “tirar vantagem em tudo”, estamos assim, deseducando nossos filhos, e o que é pior, estamos ensinado desde de cedo a prática da Corrupção e da Impunidade.

Entretanto, sabemos que a “Escola” não pode ter uma ação excludente, deve sim absorver todos os frutos do nosso meio social, compreendendo e respeitando a sua diversidade, dando a cada cidadão o direito de receber Educação de boa qualidade.

A Educação em hipótese alguma pode ser privilégio de poucos, precisamos mais do nunca buscar entender as formas de organização da Sociedade, capazes de nos apontar caminhos na construção de uma convivência com nossos alunos, onde igualdade e diferença não são pólos opostos, mas complementares.

A decadência do Sistema de Ensino está intimamente ligada à política educacional que vem sendo instituída em nosso país, onde as estatísticas das aprovações em massa, isto é, os números, falam mais alto do que o real desenvolvimento do povo brasileiro. Pois são esses falsos quantitativos que irão posicionar o país numa melhor condição mundial para que os propósitos dos governantes sejam atingidos.

Da mesma forma, o poder econômico altamente valorizado acima dos valores humanos, vem corrompendo a mente dos indivíduos levando a decadência de nosso Sistema Educacional.

Cabe-me ressaltar que a partir do momento em que a política entrou nas escolas públicas, através das eleições de diretores transformando-as em mais um reduto partidário, onde os ideais educacionais, que norteavam suas diretrizes, deram passagem aos ideais político-partidário daqueles que estão provisoriamente na situação e ditam as normas a serem seguidas, a “Escola Pública” vem deixando de cumprir o seu papel na Sociedade, acelerando, a passos largos, a sua desestruturação como instituição.

Esta situação transformou a “Escola” num ambiente competitivo onde os verdadeiros líderes, profissionais idealistas e fiéis aos princípios educacionais dão lugar àqueles que perseguem o poder ou a manutenção deste. Sendo assim, a ação educacional conduzida pelo professorado e o afloramento natural das potencialidades do alunado deixam de acontecer, pois todo este processo passa a ser conduzido por outros interesses e não o do crescimento participativo do indivíduo.

É difícil, ou melhor dificílimo, conciliar dois ideais, pois de certa forma um irá cercear o outro e o processo de crescimento de um ser, desde do momento em que ele nasce, deve ser conduzido com total liberdade, consciência e imparcialidade para que o indivíduo, como a própria palavra diz, tenha a possibilidade de, sem pressões e direcionamentos externos, formar a sua individualidade.

A “Escola” como instituição de ensino esvaziou-se ao longo de algumas décadas e deixou de ser tratada como a instituição que repassa o “Saber”, aquela em que o principal objetivo é a formação intelectual e moral do indivíduo, preparando-o para a vida social. Passou a ser tratada como uma instituição assistencialista, poderíamos dizer uma “Creche”, onde a ação mais importante é abrigar crianças e adolescentes dando-lhes alimentação e um ambiente seguro durante um espaço de tempo. Desta forma, a “Escola” perdeu o seu sentido e passou a preencher uma lacuna em nosso meio social.

Sabemos que este é um assunto complexo e está intimamente ligado a vários segmentos de nossa Sociedade, pois, não podemos falar de Educação sem falar em Alimentação, em Saúde, Moradia, Emprego, Saneamento básico, etc... pressupostos básicos para que o indivíduo adquira uma boa constituição física e possa ter cognição para assimilar conhecimentos e informações e assim formar o seu pensamento lógico.

Precisamos pensar seriamente em mudar este quadro, em dar dignidade a este povo elevando a sua auto-estima, isto é, dando-lhe condições reais de chegar junto, de igual para igual. Educar é isto, é apropriar o indivíduo de recursos para que possa concorrer com todas as oportunidades que lhe são apresentadas e escolher o seu caminho de forma consciente.

Pema Drolma
Sacerdotisa Superior da Ordem Beth